daniarrais
Nov 21
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A minha maternidade foi sequestrada pelo luto. Martin tinha um mês quando meu irmão morreu. Pra além da dor e da incredulidade, tive muito medo de ser uma mãe triste. Não que eu não quisesse sentir tristeza, ela já estava ali imposta, mas eu não queria que ela fosse protagonista dos meus dias. Não seria justo com aquela vida que mal tinha começado - nem mesmo com a mãe que imaginei ser. Mesmo que mães sejam tristes e felizes e plenas e exaustas e invencíveis e também cheias de falhas. Mãe é gente. Ainda assim, quanto medo eu tive. Precisei de um tempo pra processar tudo. Estava sempre presente, mas hoje tenho pensado na qualidade dessa presença. E consigo fazer isso porque tô há meses numa espiral de cuidados pra me resgatar. Começo a sair do afogamento.
Esses últimos dias passei sozinha com meu filho. Laura viajou pra Portugal, primeira vez dela longe dele (deixou uma cartinha pra cada dia e ainda caprichamos nas chamadas de vídeo). De cara pensei que fosse ser intenso demais. No meio do caminho, peguei Covid, porque não dava pra deixar simples a coisa toda, rs (mas quem tem amigo tem tudo, inclusive almoço, jantar, sobremesa). Terminei a minitemporada com a certeza de que esse momento com meu filho era tudo que eu precisava, talvez até que a gente precisava. Foi gostoso, leve, divertido. Foi de uma presença total (só num dia que tive febre que foi socorro deus). Desses dias levo a alegria de viver essa vida junto, construindo nosso vínculo a partir do cuidado, da tinta na mão, dos livrinhos, do spa dos pés, da “pacanga” tirada do pé. Parece que agora, finalmente, consigo me entregar a esse amor gigante sem culpa de também ser feliz. Porque a morte parece que nos tira isso. Como vou ser feliz se carrego uma dor tão grande? Domingo passado consegui ficar contente de gravar um vídeo de Martin dizendo “Gui-do”, nome do meu sobrinho. Um domingo depois, celebro a sorte que é poder estar aqui com e para meu neném, que é um menino que me encanta, me ensina, me faz olhar pra mim e para as minhas dores sem filtro algum. Obrigada, meu filho, por tamanho mergulho.
#escrevescreve #eraumavezduasmães #cartasparaomeuirmão
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