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Dentre as experiências marcantes em últimos anos — especialmente quando as vivências perante o fim são tão paradigmáticas — os percursos em relação à minha identidade de gênero são dos mais potentes. Pois para além de viver uma versão de mim que sempre existiu, tenho tido encontros tão importantes, com pessoas que guiam minha perspectiva e esperança. Os desafios estão inscritos no mundano, onde um cotidiano é atravessado por conflitos. Porém, é como se fosse uma vida que vale mais a pena de ser vivida — com todos os pesares, especialmente o luto. Assim, quando uma plataforma auto-denominada como "para mulheres" me convida para a entrega de um projeto curatorial, no início, senti um deslocamento. O reforço do despertencimento. Todavia, o cansaço de adequar a minha narrativa à uma categoria única me levava à questionar: Mas não seria exatamente tais espaços necessários de esgarçamento e reflexão? Onde estão as pessoas não-binárias, transmasculines, e demais dissidências de gênero na arte e curadoria? O "não" sempre estará posto. Tenho caminhado de forma incisiva em relação aos diálogos, no qual proponho minhas aflições, reflexões, criticas e desejos — nunca aceitando o silêncio. Afinal, escutarão aqueles que no fundo sabem: A mudança não é uma escolha, mas um caminho que cedo ou tarde precisaremos percorrer coletivamente. Nesse momento, @paulaplee me surpreende acolhendo não apenas a minha narrativa, mas o meu desejo de um projeto curatorial que move a própria plataforma à um novo momento de sua atuação. Agradeço pela oportunidade de não abrir mão de mim, e também de realizar uma curadoria tão especial para a maior feira da América Latina em São Paulo. Compartilho esse relato para especialmente dizer: A responsabilidade de romper um processo cis-tematicamente exclusório de artistas em plurais narrativas de gênero na arte é principalmente daqueles que detém privilégios históricos. É urgente entendermos a diferença de solidariedade e cooptação. É urgente a divisão de privilégios quanto infra-estrutura, acesso e redes de contato. Seguimos sendo corpos-lâmina esgarçando a trajetória. E que o caminho se adapte à nossa própria imensidão — não mais o contrário.
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